Trechos de Elisa Lispector, escritora menos famosa que a irmã, Clarice, mas igualmente espantosa. Em alguns momentos de sua obra Elisa lembra Clarice, mas tem estilo e temática bem próprios. Pena que quase ninguém a conheça.
(Eu dava um pé para ser dessa família. Ia dar a mão, mas então não conseguiria escrever.)
“Um dia somos concebidos casual ou propositadamente e dão-nos à luz, e moldam-nos os sentimentos e a inteligência, quando não nos abandonam aos caprichos da sorte, até o dia que nos fazemos conscientes. Então uma vontade em nós se revela, mas quase inevitavelmente entramos em choque com as circunstâncias que nos rodeiam (...) Enquanto a morte não vem, a vida passa vazia, efêmera e inglória."
“ao entardecer, espalha-se por sobre todas as coisas uma tal desolação que é difícil de suportar. Recolho-me na noite como alguém que se envolve em amplo manto. Dormito mais é durante o dia. A noite minha é para decantar esta solidão povoada de angústia. No silêncio da noite cabem todos os espantos e indagações. A noite abre uma tão grande vastidão no tempo que é como se nunca mais fosse acabar.”
“a luta para a gente se afirmar, a luta para a gente se entender! Depois vem a morte, que interpõe uma parede entre nós e os outros, e entre nós e nós mesmos, uma vez que o corpo morto que está no ataúde já não é mais a nossa individualidade. Não mais as nossas procuras, as carências, os sonhos, os sentimentos. Não Mais. Nada mais”
“A vida é cruel, e por vezes tão absurda, que para suportá-la penso que tudo deveria ser permitido. Tudo.
- Por que então não ouso, por que não a agarro com ambas as mãos? Já me perguntei muitas vezes.
- Talvez por tibieza. Por falta de força.”
“Estou procurando aproximar-me de ti. Faço-o, porém, devagar, com medo de ferir a palavra, de turbar o silêncio, varrer uma nuvem, apagar uma estrela. Sempre foste tão susceptível e fugidio. Sempre tão fora do meu alcance! (...) É um mordimento cuja raiz procuro inquieta situar, e me perco dentro da assustadora desorganização de mim. Estou quebrada em mil pedaços, e não consigo juntar os fragmentos.”
“Mas, como te dizia, só consigo captar episódio em fragmentos. E nessas poucas reminiscências resume-se nossa vida por inteiro, que mais não há o que avulte, ou valha a pena recordar, tão rasa é a existência, penso enquanto na praia deixo os finos grãos de areia escorrerem por entre os dedos numa metáfora de vida desperdiçada, de sentimentos desencontrados. Mas, não. Na realidade, há muito mais a reavivar. Tentar compreender e aceitar.”
“Também preciso ter papel e lápis à mão, porque se não aprisiono no âmbito das palavras o que está acontecendo, a luta terá sido em vão. Também aprendi isto: que viver de olhos abertos para a realidade produz uma angústia tão grande que é preciso apequenar a existência do dia-a-dia para poder poder suportá-la.”
“estou vivendo sob o signo da implicação da morte. Por vezes já nem sei por que nem para quem escrevo. A memória me trai, a palavra me escapa. Risco uma frase, substituo por outra, como se devesse aplicar-me numa tarefa destinada a construir algo para perdurar. Mas a idéia da morte volta a sobrepor-se, e nas entrelinhas do que escrevo insinua-se a certeza da inutilidade do meu esforço, a convicção de que momento a momento estou me aproximando da minha própria destinação mortal. (...) O homem nascido de mulher é curto de dias e farto de inquietações”
“aos trinta anos, eu ainda tinha esperança, em meio a grandes e avassaladoras depressões embora; aos cinqüenta, talvez já me encontre serenada, sem perceber o fora-do-meu-alcance. Aos quarenta, sinto-me completamente desorientada. Ainda me custa ceder, apesar de não ter mais por que lutar”
“e de súbito sinto que me quero livre. É um desejo sobre-humano de libertar-me de tudo, num plano sem barreiras em que eu possa começar tudo de novo, sem ontem, sem amanhã, para situar-me no já-isto-agora. Numa disponibilidade de quem se sabe gerada sem nenhum propósito definido, e vivendo ao acaso com a limpidez e a leveza de uma pequena chama que à menor lufada de vento se apaga. (...) Paro de escrever, e me vem uma imperiosa necessidade de viver na plenitude, á pura flor da pele.”